
Série de reportagens de Ariadne Araújo, publicada em suplemento especial do jornal O POVO, Ceará.
A história dos 55 mil brasileiros recrutados pelo governo Getúlio Vargas para produzir, nos seringais da Amazônia, 100 mil toneladas de borracha por ano para os países Aliados durante a II Guerra Mundial.
Fugindo da seca de 1942, nordestinos se alistaram como voluntários e pelo menos 31 mil morreram, vítimas de malária e outras enfermidades, além dos problemas decorrentes da dura jornada de trabalho.
A reportagem resgata essa história e mostra onde estão hoje os sobreviventes da Saga dos Arigós, que ampliou a presença do povo nordestino na ocupação social da Amazônia.
Editorial | A guerra da borracha | Seca & Migração
A caminho do inferno verde | Tragédia no seringal
(Des)cuidando da memória | Heróis esquecidos | Mitos
Em busca dos heróis da Pátria
A história por trás da história.
O cordelista de Sobral, João Amaro, 68, puxou, sem querer, a
ponta de um novelo. No começo, o assunto nem era esse. O aposentado
mostrava material, dezenas de folhetos de cordéis de sua autoria,
para uma matéria sobre os versos fesceninos, veiculada pelo suplemento
Sábado. No decorrer da entrevista, no entanto,
uma surpresa: a vida de João Amaro se confundia com a de 55 mil
nordestinos que formaram, durante a II Guerra Mundial, o Exército
da Borracha.
Numa carta amassada, espécie de desabafo e denúncia, ele
resume a quem se interessa em saber, os anos de cativeiro e sofrimento
na floresta amazônica. Um sacrifício pedido pela Pátria
para a vitória dos países Aliados. Para o jornal O
POVO, essa era uma história que não poderia deixar
de ser contada. Inquieta e apaixonada pelas boas causas, a repórter
Ariadne Araújo foi até o Norte do País. Durante
14 dias, pesquisou muito e descobriu que a experiência do seu
Amaro era a referência do último ciclo migratório
que levou nordestinos ao Vale da Amazônia.
Ariadne visitou seringais às margens dos rios do Acre, região
que concentrou boa parte desses migrantes. Encontrou o exército
da borracha envelhecido, doente, em busca de uma outra dívida:
a promessa do Governo Federal de reconhecê-los como heróis
da Pátria. São essas histórias, perdidas entre
os igarapés, nas margens de rios barrentos, balançando
em palafitas, contadas sob a revolta de quem descobriu tarde demais
que foi enganado, que esse suplemento vai contar.
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A enxada pela faca de seringa. A seca
do Nordeste pela floresta Amazônica. A troca foi durante a Segunda
Guerra Mundial, quando 55 mil agricultores nordestinos formaram o Exército
da Borracha. Missão: salvar os países Aliados do colapso
da borracha. Pelo menos 30 mil deles morreram em completo abandono.
A II Guerra Mundial, a floresta na Amazônia ou a
seca no Ceará. De 1943 a 1947 esses três momentos da história se
misturaram. Em Alto Santo, no Vale do Jaguaribe, leste do Estado, o
plantador de feijão e arroz, Edgar Bezerra Mota, 72, fez a escolha. Há
55 anos, ele deixou a lida com a terra, a família, o lugar onde nasceu
e virou seringueiro. Como ele, outros 55 mil nordestinos pegaram um
navio para o Norte e mudaram, de um dia para o outro, suas vidas. Um
exército - número igual ao de americanos mortos no Vietnã -, convocado
às pressas pelo governo do Brasil para um esforço de guerra: a produção
anual de cem mil toneladas de borracha.
Se fosse enredo de filme, poderia ter o título Sem Saída. Se fosse tema de livro, Tragédia Anunciada. Um pacto, os Acordos de Washington,
assinado pelos presidentes Franklin Delano Roosevelt, dos Estados
Unidos, e Getúlio Vargas, do Brasil, selou o destino do exército da
borracha. Eles tinham uma importante missão nacional: salvar os países
aliados do colapso na indústria bélica. Para os americanos, um quilo de
borracha valia mais que um general e um batalhão juntos. Era o nervo da
guerra. O problema mais urgente a ser resolvido. O produto mais crítico
a ameaçar o êxito dos Aliados.
A comissão especial, formada para estudar o fornecimento e estoques de
material de guerra, deu o alarme. Em 1944, cerca de 27 milhões de
automóveis na América teriam que ser abandonados pela falta de pneus.
Além dos carros, sairia afetada a produção de calçados, isolantes,
cinturões, peças para rádio e telefones, por exemplo. O estoque
armazenado daria para, no máximo, doze meses. Os planejadores militares
entraram em pânico. Mas a indústria de armamento teria prioridade.
Melhor o desconforto que a derrota.
O relatório final da comissão não deixou dúvidas. Se não fossem
assegurados novos suprimentos, as exigências militares esgotariam o
estoque - 641 mil toneladas -, antes do verão. O jeito foi partir para
o sacrifício. No início, de civis americanos e, logo depois, de
milhares de nordestinos brasileiros. Para reduzir o consumo de pneus,
os EUA racionaram gasolina, limitaram em 56 quilômetros por hora a
velocidade e em oito mil quilômetros o percurso médio anual dos carros
e ainda suspenderam a produção e venda de automóveis, até segunda
ordem.
A produção do aço, do cobre, do alumínio, das ligas ou da gasolina de
aviação estava garantida. Havia estoque considerável à disposição das
forças armadas. Mas a crise da borracha atingiu a todos os Aliados. A
Inglaterra tinha apenas 100 mil toneladas de estoque. O Canadá, 50 mil.
A Austrália, 20 mil. A estratégia era buscar toda a matéria-prima
existente na América Latina. Pelo menos até que a borracha sintética,
um antigo projeto dos EUA, fosse um sucesso e passasse a ser fabricada
em escala, permitindo a comercialização. Um total de 50 novas fábricas
trabalhava para isso.
Quando a guerra terminou, a produção de borracha sintética já alcançava
um milhão de toneladas anuais. Mais que o volume de toda a borracha
importada em um ano, antes do conflito mundial. Mas isso foi só em
1945. Ainda no auge da crise, um boletim informativo do governo
brasileiro trouxe boas novas: a existência de 300 mil árvores da hévea brasiliensis,
mais conhecida como seringa, espalhadas por toda a Amazônia. Era, como
se diz, a ``sopa no mel''. Isso significava um potencial de 800 mil
toneladas anuais, numa área de quase um milhão de milhas quadradas,
incluindo o Brasil, Peru, Bolívia e Colômbia. A metade dessa produção
já resolveria a crise dos Aliados.
Os técnicos que fizeram os cálculos esqueceram, no entanto, de computar
alguns detalhes importantes. Um deles era a questão da distância. Na
Amazônia, em meio acre de floresta, pode-se encontrar, no máximo, três
ou quatro seringueiras. Outro ponto não levado em conta era a falta de
mão-de-obra para reorganizar os seringais amazônicos, abandonados na
década de 30, quando a extração brasileira de borracha caiu para 6 mil
toneladas, ou seja, 0,2% da produção mundial. Resultado: eram grandes
as chances de as coisas não caminharem tão de acordo com o que foi
colocado na ponta do lápis.
Não poderia ter outro nome. A operação que aconteceu no Vale Amazônico
em pleno conflito mundial passou a ser chamada de Batalha da Borracha.
Os técnicos fizeram, então, novas contas. Em toda a região Amazônica,
deveriam restar apenas 35 mil seringueiros, remanescentes do primeiro
ciclo da borracha. Era preciso trazer, e urgente, mão-de-obra para a
extração de látex suficiente para resolver a carência dos países
Aliados. Em troca, o Brasil tinha a promessa de ver resolvida uma lista
de pendências: 20 tanques leves, 100 tanques de porte médio, quatro
metralhadoras antiaéreas e ainda US$ 200 milhões para equipamentos
militares.
Com os olhos no Norte do Brasil, os Estados Unidos tinham pressa. Na
base do ``custe o que custar'', o plano era o de obter o máximo de
borracha em um mínimo tempo. Os americanos não se interessavam nem pelo
desenvolvimento da Amazônia e nem pelo bem-estar da população, embora
alardeassem isso. Enquanto eles arcavam com o ônus maior, envolvendo-se
diretamente no conflito, o resto da América devia participar do esforço
de guerra, no fornecimento de matérias-primas à indústria bélica e na
manutenção da ordem interna, para se evitarem alterações nos
compromissos políticos e econômicos assumidos.
Franklin Roosevelt queria mais que a produção de borracha do Brasil.
Getúlio Vargas cedeu. Aumentou o número de tropas de manutenção nas
bases aéreas do Norte e Nordeste, liberou a construção de instalações
militares e navais e a permissão para que as aeronaves americanas
usassem o espaço aéreo nacional. Em alguns casos, oficiais brasileiros
chegaram a entregar o comando das tropas para oficiais americanos. Mas
tudo isso ainda não foi suficiente.
A vida do agricultor Edgar Bezerra Mota, por exemplo, também entrou na
negociação. Ele e outros milhares de nordestinos, na grande maioria
adolescentes, foram colocados na mesa como trunfos do Brasil nessa
política de boa vizinhança. Na barganha do toma-lá-dá-cá, a
mão-de-obra, tratada pelos jornais como tropa de flagelados, era algo
importante a se oferecer no sacrifício da guerra. Só no ano de 1945,
esse exército recrutado aumentou o estoque de borracha natural de
93.650 para 118.715 toneladas. Uma reportagem publicada no New Chronicle,
de Londres, denunciou a tragédia: 31 mil migrantes nordestinos morreram
na tentativa de garantir matéria-prima para os Estados Unidos.
O deputado federal Café Filho, representante do Rio Grande do Norte,
pediu a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar a
situação dos trabalhadores enviados à Amazônia. A CPI da Borracha ouviu
depoimentos, realizou doze sessões e foi dissolvida sem conclusão
nenhuma. O que a CPI não disse em seu relatório é que, com o fim da
guerra, a situação nos EUA se normalizou e os americanos já não
precisavam mais do Brasil. Em conseqüência, o País também não precisava
mais dos 55 mil homens que mandou para a Amazônia. Poucos conseguiram
voltar para casa.
A Batalha da Borracha não deixou nada para o Brasil. Os seringais, a
maioria falidos ou hipotecados, seriam, anos mais tarde, presa fácil de
especuladores de terra que começaram a atuar na região. Manaus, o
centro do esforço de guerra, estava arruinada e não era, nem de longe,
uma sombra do luxo e deslumbramento do começo do século. Já os
trabalhadores foram entregues à própria sorte. Enquanto isso, os
Estados Unidos conseguiram, finalmente, sua produção de borracha
sintética e a Inglaterra recuperou suas possessões e cultivos de
seringueiras. O mundo voltava, aos poucos, à normalidade. A reportagem
do New Chronicle resume:``Agora os mortos continuam absolutamente mortos''.
Invasões e escassez
O ataque a Pearl Harbour arrastou os Estados Unidos para a guerra
contra o Japão. Mas foram as invasões japonesas na Malásia e Borneo -
sob o domínio inglês -, que trouxeram o pânico aos estrategistas
americanos. Isso significava um corte brusco em 97% de suas fontes de
suprimentos. Na cabeça da lista: a borracha. O mercado ocidental da
goma elástica estava, então, fechado para os Aliados.
Antes disso acontecer, no entanto, os EUA tinham feito alguns esforços
para evitar um possível desastre. Alarmados pela extensão e intensidade
do conflito no Pacífico e temendo um colapso civil e militar, os EUA
intensificaram o seu programa de procura e compra da borracha. A
iniciativa aumentou o estoque, principalmente através de permutas com a
Inglaterra. O negócio era trocar borracha crua por produtos agrícolas,
como algodão. O embaixador inglês Lord Halifax tinha motivos
suficientes para satisfazer as necessidades de borracha da indústria
americana.
Primeiro a Inglaterra precisava de divisas para enfrentar a guerra. Em
segundo lugar, os ingleses tentavam evitar com isto que os americanos
montassem uma poderosa indústria de borracha sintética. Também estava
em jogo um possível apoio à causa anglo-francesa. Mas, apenas três
meses após o ataque a Pearl Harbour - Porto das Pérolas -, no Hawai, os
EUA proibiam a venda de pneus. Fora da ocupação japonesa, os Aliados
ainda tinham como alternativas a Índia, Ceilão, Libéria, África e
América Latina.
Confusão e tumulto. As repartições do governo americano começaram a se
abarrotar de sugestões de especialistas. Eram dezenas de planos e
projetos para procura e produção de borracha. Foi em meio ao desespero
como esse que os americanos se depararam com a Amazônia, de longe o
maior depósito de borracha natural. A Rubber Development Corporation
assumiu, então, o comando da orientação e organização de planos do
governo americano para obtenção do látex amazônico. E a história do
Exército da Borracha começa a ser desenhada. (AA)
Como os ingleses roubaram o ouro branco
De simples droga do sertão a ouro branco. A exploração da borracha
vegetal na América remonta aos tempos pré-colombianos. Para os índios
que habitavam o golfo do México, ela era moeda e pagamento de tributos
aos Astecas. As expedições científicas nos séculos XVIII e XIX, no Vale
Amazônico, voltavam fascinadas. No começo do século XVI, a descoberta
já não era uma simples notícia, mas sim uma possibilidade comercial em
meio a uma Europa ávida por novas oportunidades econômicas.
O inventor americano Charles Goodyear resolveu o problema em 1839: o
ponto ideal de elasticidade e impermeabilidade. Ou melhor, a
vulcanização. O processo tornava a borracha resistente às variações de
temperatura e abria os caminhos para a indústria do processamento da
borracha. De um lado a outro do Atlântico surgiram correias,
mangueiras, calçados, pisos, artigos esportivos, vestimentas
impermeáveis, equipamentos cirúrgicos e elásticos.
A invenção do pneumático (1888), o aparecimento do automóvel (1895) e a
massificação da bicicleta como veículo de transporte causaram o surto
da borracha nos mercados mundiais. De todas as áreas onde se operava a
extração do látex, a Amazônia era a que oferecia maior segurança e
amplas possibilidades: quantidade quase ilimitada de seringueiras e
gomais e boa produtividade das árvores. Mas, no final do século
passado, o Norte do Brasil era ainda a região de cacauais, cafezais,
dos engenhos, das lavouras e do pastoreio.
Tarde demais para tanta paz. Começava a desenfreada corrida rumo aos seringais. A Amazônia transforma-se na região das héveas,
do ouro negro, dos pioneiros, dos seringueiros, dos patrões, dos
aviadores. No início, na chamada fase cabocla, os seringais foram
explorados por mão-de-obra local: mestiços ou tapuios. O boom da
borracha, no entanto, chamou a atenção de trabalhadores do outro lado
País. O historiador Celso Furtado estima em 500 mil o número de
nordestinos que se retiraram para a Amazônia nesse primeiro ciclo da
borracha.
Os seringalistas ou patrões sabiam onde procurar operários. Em
Fortaleza, Recife e Natal, eles encontravam desempregados e refugiados,
fugitivos da seca e da miséria no sertão. A arregimentação tinha uma
propaganda forte. Trazia a ilusão de enriquecimento rápido, de trabalho
autônomo, de liberdade, do El Dorado. De 1850 a 1900 a população do
Vale Amazônico aumentou dez vezes. No livro História Econômica do Ceará,
Raimundo Girão calcula: das 300.902 pessoas que emigraram do Ceará, no
período de 1869 até o final do século, 225.526 se destinaram para a
Amazônia.
Era difícil imaginar que aquela euforia fosse passageira. O Brasil
dominava o mercado mundial e tinha o maior reservatório de seringueiras
do Planeta. A economia da borracha se expandiu entre 1880 e 1920. Em
1913, por exemplo, a borracha responde por 20% da exportação total do
País. A riqueza da região parecia inesgotável. Mas a prosperidade do
Vale Amazônico estava com seus dias contados. Na Inglaterra, um plano
bem articulado estava sendo traçado. A idéia era roubar o ouro branco
do Brasil.
O aventureiro inglês Henry Wickham fez o trabalho sujo ``nas barbas''
do governo brasileiro. Ele chegou à Amazônia em 1876 como um excêntrico
colecionador de orquídeas, à procura de tubérculos raros. Às margens do
Tapajós, ele iniciou suas experiências. Plantou uma grande quantidade
de seringueiras e, logo logo, produziu as cobiçadas sementes. Um navio
de Sua Majestade Britânica, o Amazonas, levou o contrabando como se
fossem preciosos pacotes de orquídeas. Na verdade, eram milhares de
sementes da árvore da borracha a caminho das estufas londrinas e depois
para o Ceilão. Estava preparada a surpresa.
Fraude ou contrabando? Enquanto o Brasil ainda comentava o farto
banquete oferecido em Belém aos tripulantes do navio de Sua Majestade a
Rainha da Inglaterra, as sementes roubadas davam início ao cultivo de
seringueiras nas colônias britânicas do Oriente. Sem tecnologia, com um
sistema arcaico na extração do látex, baixa produtividade e elevados
custos, o sistema extrativista da Amazônia não resistiu. A concorrência
era organizada, trabalhava com pesquisa e cultivo racional. Estava
quebrado o monopólio brasileiro.
Quebradeira geral. Falências e concordatas. Seringais desativados. Esse
foi o calamitoso ano de 1913. Sem esperanças, Epitácio Pessoa resolve
fornecer passagens aos nordestinos para que regressem às suas regiões.
Uma corrente migratória em sentido contrário. Trinta anos depois, em
plena Segunda Guerra Mundial, o sonho do El Dorado volta a mexer com a
cabeça dos brasileiros. Os nordestinos já sabem o caminho. É o mesmo
que levou e trouxe avós e pais. (AA)
Eles fizeram esta história
Esperança de voltar - A venda de picolés é o complemento da
aposentadoria de João Vitorino Bezerra, 65. Quando chegou à Amazônia,
foi trabalhar em um seringal próximo aos índios urubus-araras. ``Chorei
muito de saudade da minha terra, no Ceará. O meu sonho, estar perto de
meus pais na hora da morte deles, eu não realizei. Mas continuo
sonhando em voltar à minha terra''. Na festa do Soldado da Borracha,
João Vitorino não perdeu a chance: levou o carrinho de picolé. Dois
coelhos com uma cajadada: rever amigos e ganhar uns trocados para
sustentar os netos.
Medo da polícia - Benedito Ferreira, 84, nasceu em Riacho do
Sangue, na região do Jaguaribe, no Ceará. Só a oração de Santa Luzia
era garantia de proteção contra os perigos da selva ou mau patrão.
Mesmo depois de tanto tempo, o aposentado ainda tem um medo da época de
seringueiro: que a polícia venha prendê-lo por uma briga que acabou mal
em meio à floresta. O rival foi ferido de morte? Ele não sabe, mas, por
via das dúvidas, é melhor prevenir. Além de um problema na perna que o
impede de andar direito, ele traz outra herança: o castelhano.
``Aprendi a falar espanhol com os bolivianos''.
Amuleto da sorte - Uma bola de borracha. Fui tudo o que sobrou
da lembrança da época de seringueiro. Filho de paraibano, José Correa
dos Santos, 58, conta que tudo era difícil para o soldado da borracha.
Em Cruzeiro do Sul, município do Acre, próximo à fronteira com o Peru,
ele hoje é proprietário de um pequeno comércio de secos e molhados. O
dinheiro para montar o próprio negócio ele conseguiu porque deixou a
vida de seringueiro e foi ``regatear'', ou melhor, comerciar pelos rios
do Acre. Hoje, um quilo de borracha pendurado por um cordão funciona
como um amuleto de sorte na entrada do comércio. ``Só venci porque
deixei a vida de soldado da borracha''.
PERCURSO DA BORRACHA PELO MUNDO
Acordos de Washington - Sem estoques de borracha e diante de um colapso da principal matéria-prima para a indústria bélica, os Estados Unidos assinaram
os Acordos de Washington com o Brasil. O objetivo era extrair da
Amazônia, o maior reservatório de látex do Planeta, 100 mil toneladas
de borracha por ano. Por causa disso, um plano de atração de
mão-de-obra foi colocado em ação. Cerca de 55 mil nordestinos foram
levados pelo Governo Federal para trabalhar na floresta.
Monopólio - Em 1876, a Inglaterra iniciou o
cultivo de seringueiras em bases racionais nas colônias do Oriente,
como a Malásia. As sementes, roubadas da Amazônia por um aventureiro,
Henry Wickman, foram levadas para estufas inglesas e, anos depois,
deram origem a um novo mercado fornecedor de borracha. O Brasil perdia
o monopólio para a Inglaterra.
El Dorado - A partir de 1943, a Amazônia viveu um
novo El Dorado. A corrida em busca do ouro branco que, no século
passado, já havia provocado um processo migratório do Nordeste para o
Norte do País, voltou a acontecer. Segundo um boletim divulgado pelo
Governo Federal, a extração da metade da borracha disponível na
Amazônia já resolveria a crise da borracha em que se achavam os Aliados.
Alternativa - Os ingleses temiam que os americanos montassem uma
poderosa indústria de borracha sintética. Três meses após o ataque a
Pearl Harbour, no Hawai, os EUA já proibiam a venda de pneus. O mercado
alternativo para compra da matéria prima pelos Aliados era formado pela
Índia, Ceilão, Libéria, África e América Latina
Cultivo racional - Na Malásia, as sementes de
seringueiras, roubadas do Brasil, foram cultivadas de forma racional.
Nas plantações do Oriente, ao contrário do Brasil, a distância entre as
árvores era a mínima necessária, sob orientação de pesquisas. Na
Amazônia, os seringueiros tinham que se embrenhar na floresta à procura
do látex. Isso significava perda de tempo e de produção. Principalmente
por causa disso, a seringa da Malásia conquistou o mercado
internacional.
A origem da minha viagem
A esta santa terra
É porque em quarenta e três
O Mundo estava em guerra
Foi a causa de tudo
Que nesta História se encerra
Raimundo de Oliveira (RO), cordelista e soldado da borracha
Eu já ia para a guerra
Já estava sorteado
Mas havendo necessidade
Para a borracha fui tirado.
O bem da Pátria também era
Um bom serviço prestado.
(RO)
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Dinheiro fácil. A promessa atraiu milhares de nordestinos para o
Exército da Borracha. No trabalho de arregimentação de voluntários, o
Governo Federal pediu ajuda a padres, médicos, enfermeiras. Nos
alojamentos, construídos para receber os soldados, problemas com a
comida, surtos e motins.
Uma calça de mescla azul, uma blusa de morim
branca, um chapéu de palha, um par de alparcatas de rabicho, uma caneca
de flandre, um prato fundo, um talher, uma rede e uma carteira de
cigarros Colomy. No lugar da mala, um saco de estopa. O enxoval do
soldado da borracha era o presente do presidente Getúlio Vargas aos
voluntários do Inferno Verde, como ficou conhecida a Amazônia
posteriormente. Melhor que isso, só a promessa de dinheiro fácil
estampada em cartazes de propaganda do Governo Federal. Difícil
resistir. Principalmente para quem vive no Sertão em um ano de muita
miséria. Na seca de 1942, cerca de 55 mil nordestinos se alistaram para
a Batalha da Borracha.
Ou corre ou morre. Joaquim Moreira de Souza, de Russas, oeste do Ceará,
explica: a seca me catucou. A ameaça de inclusão na Força
Expedicionária Brasileira, que lutava na Itália, foi o empurrão que
faltava. Mas na inauguração da Campanha Nacional da Borracha, Getúlio
Vargas empolgou os indecisos. ``Brasileiros! A solidariedade dos vossos
sentimentos me dá a certeza prévia da vitória''. Pra completar, um
prêmio para o seringueiro campeão. O maior fabricante de borracha
durante o ano levaria 35 mil cruzeiros. Isso e mais vantagens: uma
viagem grátis, ou quase, de caminhão, trem e navio por mais de cinco
mil quilômetros até o ``El Dorado''.
Só em Fortaleza, no Ceará, a Campanha da Borracha encontrou 30 mil
flagelados à espera de ajuda. No Interior do Estado (Sobral, Iguatu e
Crato), o Governo Federal também abriu postos de arregimentação. Um
exame físico e a assinatura de contrato selavam o compromisso. Os
voluntários passavam a empregados de imediato. Com direito ao salário
de meio dólar por dia e alojamento até a partida, a tropa vivia sob
firme disciplina militar. Para abrigar tanta gente, às vezes mil em um
único dia, o jeito foi construir uma hospedaria modelo, de nome Getúlio
Vargas, perto da igreja São Judas Tadeu, no bairro Olavo Bilac, zona
Oeste de Fortaleza.
Além de aliciadores profissionais, a mando dos patrões - donos de
seringais no Amazonas -, o trabalho de convencimento era feito por
padres, médicos, advogados. A promessa era de que os voluntários
voltariam como heróis da Pátria, sob total apoio do Governo Federal, e
ficariam ricos na extração da borracha. O que não foi dito, milhares de
nordestinos tiveram que descobrir depois, quando já era tarde demais
para voltar. De livres, passaram a escravos. No coração da selva,
isolamento e solidão. Eles trabalhariam para pagar uma dívida econômica
e moral com o patrão. De lá, não se podia escapar.
A prisão pela dívida. O soldado já chegava devendo. Um patrão ou
seringalista anotava o débito em sua conta e ele trabalhava para pagar.
Um novelo de linha que nunca tinha fim. Havia sempre mais dívidas a
pagar: a comida, a roupa, a arma, o material de trabalho, o remédio.
Tudo era vendido, a preços dobrados, por uma única pessoa. E ela não
tinha pressa, nunca, em dar baixa naqueles números infindáveis. Algemas
invisíveis para um exército enganado. Os nordestinos descobriam, então,
o que era o Inferno Verde.
Para muitos, foi como uma condenação à morte. O mundo dos cavalos,
bois, safras de arroz e feijão, sol e terra, secas e flagelos se
acabou. Agora eram canoas e barcos, onças pintadas, estranhas
moléstias, florestas e rios tortuosos. A população da Amazônia reparou
no espanto. Assim, a patente era de soldado e o apelido de passarinho.
Os migrantes eram como a pequena ave de arribação, o arigó, típica do
Nordeste, que vaga de uma lagoa a outra. Mas os problemas começavam
antes da chegada à Amazônia. Promessas mirabolantes eram chamariz para
os desavisados.
A parafernália de organizações estrangeiras e brasileiras, envolvidas
na operação de guerra, não se entendia. Do lado americano, a Board of
Economic Warfare hostilizava a Reconstruction Finance Corporation. A
Rubber Reserve Company não se comunicava com a Defense Supllies
Corporation. Do lado brasileiro, o Serviço de Mobilização de
Trabalhadores para a Amazônia (Semta), a Superintendência para o
Abastecimento do Vale Amazônico (Sava), o Serviço Especial de Saúde
Pública (Sesp), o Serviço de Navegação da Amazônia e de Administração
do Porto do Pará (Snapp) pareciam não falar a mesma língua.
A Torre de Babel podia ter rendido pelo menos um conto: O Caso do
Sumiço das Mulas. Em 1942 pelo menos 1.581 mulas se perderam entre São
Paulo e Acre. A última notícia que se teve dos animais é que, depois de
quatro meses, não haviam chegado ainda a Cuiabá. Ou então a importação
de 5 mil toneladas de farinha de trigo por conta de um erro na tradução
português-inglês. Nesse caso, tudo o que os soldados da borracha
queriam era a velha farinha de mandioca. O alfaiate João Rodrigues
Amaro, 72 - na época com 17 anos -, não achou graça desses e de outros
enganos na Campanha da Borracha.
Alistado em Sobral, norte do Ceará, ele conta que a comida nos pousos,
ou seja, alojamentos, era péssima. Muitas vezes o cozinheiro levava na
cara o prato de alimento. Na água e no sal, o feijão, arroz, farinha e
charque. Pra evitar a reclamação, o Serviço Especial de Mobilização de
Trabalhadores para a Amazônia contratou três nutricionistas e alardeou
a notícia pelos jornais do Rio de Janeiro e São Paulo. Marta Novais
Filho, por exemplo, tinha a tarefa de padronizar a bóia dos amarelados
guerreiros da borracha, como diz o jornal Suplemento Econômico (Rio de Janeiro, em 1942).
Milhões de moscas perseguiam os homens nos refeitórios, dormitórios,
recreios. No alojamento de Belém, um surto de meningite matou pelo
menos 12 pessoas. A assistência médico-sanitária era precária. O mês em
que não havia óbito era comemorado. O exames de rotina se limitavam a
diagnosticar se o soldado havia ou não contraído doenças sexualmente
transmissíveis. No ato da admissão, banhos e raspagem de cabelo. Os
incapazes e doentes eram dispensados. Sair dos alojamentos, só com
autorização da chefia e mesmo assim com hora pra voltar.
Com o passar do tempo, cercados de arames e vigias, os alojamentos
começaram a parecer campos de concentração. Sem trabalho ou tarefa
fixa, sem atividade esportiva ou um simples aparelho de rádio, migrante
brigava com migrante ou com a guarda. Para o Departamento Nacional de
Imigração, esses conflitos tinham jeito de motim. Para a população, de
arruaça. Soltos, andavam ao léu pelas ruas e as brigas se
multiplicavam. Os arigós, enquanto aguardavam transporte para a viagem,
eram chamados de vagabundos, de come-e-dorme, temidos, com suas
peixeiras e, mais tarde, facas jebond. (Ariadne Araújo)
Arte de Chabloz mobiliza soldados
Uma procissão se aproxima. Homens, mulheres e crianças se arrastam pela
estrada. Uma nuvem de poeira toma conta do ar. Para Jean-Pierre
Chabloz, uma acidental testemunha da seca de 1943 no Ceará, aquele era
um cenário saído de um campo de concentração. Fantasmas, mais que seres
humanos. Em uma rede suspensa por um pau, uma criança morre de fome. A
visão é de desastre. Vales descarnados. Nos arbustos, apenas uma ou
duas folhas prestes a cair. Tudo sob o peso de um rigoroso
racionamento. Extensões queimadas e requeimadas, fazendas sonolentas e
aquela infindável multidão de retirantes.
Em 1942, O artista plástico suíço Pierre Chabloz se apaixonou pelo
Ceará ainda na estrada, durante uma viagem de 24 horas de São Luis (MA)
a Fortaleza (CE). Ele vinha contratado pelo Serviço Especial de
Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (Semta). Era o novo chefe
da Divisão de Desenhos Publicitários na Campanha Nacional da Borracha.
A primeira tarefa: criar quatro grandes cartazes para incentivar a
produção de látex. Depois, vários mapas de biotipos de nordestinos, que
ajudariam na seleção dos candidatos. Por último, a decoração
publicitária dos caminhões que, periodicamente, levariam as turmas
contratadas até metade do caminho.
As peças publicitárias da Campanha da Borracha foram enviadas para todo
o Norte e Nordeste do País. Para fazer o trabalho, Pierre Chabloz teve
que viajar em um pequeno avião até Belém, no Pará. A idéia era ver
pessoalmente a extração de látex para reproduzir. Também de São Luís
veio a sede do Semta. No Maranhão a arregimentação caminhava de forma
lenta. Os candidatos não apareciam. A notícia de milhares de flagelados
no Ceará, em busca de ajuda na Capital, quase foi comemorada. Não por
Chabloz, que se admirou com a força que viu nos retirantes.
As impressões do artista plástico foram anotadas em um diário escrito
em francês. Hoje, todo o detalhamento do trabalho do Semta - desenhos,
explicações minuciosas sobre os alojamentos, passeatas, transporte -,
está a salvo no arquivo do Museu de Arte da Universidade Federal do
Ceará (Mauc). Pierre Chabloz também guardou exemplares dos cartazes e
fotos raras da época, feitas por ele, para ilustrar suas explicações
particulares. (AA)
Campanha era puro engodo
Tudo pela vitória comum. Um trabalho de brasilidade. A propaganda
dirigida e veiculada nos meios de comunicação fazia cada novo
trabalhador na seringa se sentir um genuíno soldado de um novo front, a
Amazônia. No discurso, eles eram tão importantes quanto os aviadores e
marinheiros que lutavam no litoral contra a pirataria submarina ou
ainda os soldados das Nações Unidas. Contribuição anônima de
trabalhadores admiráveis. Sacrifício e labor incansável. Ainda por
cima, ``dinheiro a rodo''.
Puro engodo. A mais chocante das mentiras era a forma de apresentar a
coleta do látex. Nas esquinas, retratos de seringueiros em meio a
infindáveis tambores carregados por caminhões ou jeeps. É claro que não
se tratava dos seringais da Amazônia, mas das plantações da Firestone
na África ou da Malásia e Ceilão. A persuasão ideológica gastou milhões
de dólares na imprensa, rádio e cinema.
Outra campanha de persuasão abarcava todos os brasileiros. Ainda na
política de boa vizinhança, o Brasil foi invadido por jornalistas,
radialistas, editores, professores, cientistas, artistas, escritores,
músicos, diplomatas, empresários, técnicos, estudantes e pesquisadores
de mercados do Norte do Continente. Eles traziam o american way of life. O ministro Oswaldo Aranha, numa tirada de bom humor, explicou: mais uma missão de boa vontade e declaramos guerra aos EUA. (AA)
Eles fizeram esta história
Favela e palafita - Lá é cavalo. Aqui é canoa. A diferença até
hoje não sai da cabeça de Lourenço Canário da Silva, 75. No bairro da
Lagoa, no igarapé São Salvador, em Cruzeiro do Sul, no Acre, ele mora
com a mulher em uma palafita. A comunidade, cerca de 380 famílias,
compõe uma grande favela às margens do braço do rio Juruá. Um cenário
muito diferente do que Lourenço conheceu em Aracoiaba, no Ceará, onde
nasceu. ``Ganhei uma passagem de Getúlio Vargas e em troca dei minha
vida. Tudo mudou''. Como soldado da borracha ele conseguiu uma
aposentadoria de dois salários mínimos. É o que sustenta a casa.
Cordel e turismo - Um ex-seringueiro, Raimundo Nonato da Silva,
66, ganha a vida hoje contando a história da campanha da borracha para
os turistas. No Museu da Borracha, em Rio Branco, no Acre, ele recebe
os visitantes e mostra um pouco da vida na floresta, na extração do
látex. ``Meu pai era cearense. Eu era pequeno, mas via o que os patrões
faziam com os seringueiros. Eles amarravam as pessoas, metia a peia e
botava pimenta nas feridas. Era preciso ser muito homem''. O sofrimento
dele e do pai estão nos versos de cordéis que ele escreve. Uma poesia
que veio como herança dos antepassados do Ceará.
Saúde comprometida - O boato de ficar rico fez Joaquim
Evangelista Pontes, 78, deixar o emprego de entregador de pão em
Russas, no Ceará, para ser seringueiro em Rio Branco, no Acre.
``Escapei foi por aqui''. Um companheiro de profissão, Sebastião Simão,
90, teve menos sorte. ``A vista enfraqueceu de tanto trabalhar no
escuro, pela madrugada a dentro, atrás da borracha''. Simão veio do Rio
Grande do Norte, na época da II Guerra, e hoje suas lembranças são de
tristeza e de doenças. ``Até hoje tenho dor de cabeça e esmorecimento
de tanta picada de mosquito que levei. Passei muito tempo em hospital.
Quase morri''.
Sou filho do nordestino,
Natural do Ceará; vim embora para
O Acre para a seringa cortar, produzir
Borracha, ganhar dinheiro, para a sua
Terra de origem um dia poder voltar.
Raimundo Nonato (RN), cordelista e soldado da borracha)
Saindo lá do Nordeste onde
Morava no sertão, deixando lá os seus
Pais, junto com seus irmãos, para
Vir morar nas matas do Acre, no
Seringal do patrão.
(RN)
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O sacrifício pela
Pátria começava na viagem. Em caminhões, trens
de cargas e navios, os migrantes passaram meses de maus tratos até
a Amazônia. O medo de um ataque fulminante por submarinos alemães
era o terror em alto mar.
Em carrocerias de caminhões, em vagões
de trem de carga, na terceira classe de um navio até o Amazonas.
A viagem dos arigós era difícil. De Fortaleza até
o seringal, por exemplo, podia demorar mais de três meses. Pior
que o desconforto, só o perigo de ir a pique no meio do mar.
Afinal, em tempos de guerra, era comum a notícia de ataques de
submarinos alemães. Para prevenir, os soldados da borracha recebiam
instruções e um colete salva-vidas. Em caso de naufrágio,
nos bolsos internos, havia uma pequena provisão de bolacha e
água. Em caso de captura pelo exército inimigo, uma pílula
de cianureto. Era escolher entre o suicídio e a prisão
inimiga.
Durante o percurso, valia a lei do blecaute para os soldados da borracha.
Proibido fumar ou acender sequer um palito de fósforo. Os navios
cheios de arigós eram comboiados por dois caça-minas e
um avião torpedeador. Estratégia de segurança para
prevenir o ataque alemão. Uma luzinha no mar significava alvoroço
a bordo. Marinheiros e binóculos no convés. Terror entre
os passageiros que não sabiam nadar. Além do susto, mau
trato. Aos migrantes, era oferecida uma alimentação péssima
e reduzida. No relento - em muitos casos famílias inteiras -,
eles pensavam que outros perigos e dificuldades ainda viriam.
Do Lloyd Brasileiro, o maior navio de transporte de passageiros e cargas
da época, para os Gaiolas. Essas embarcações menores,
construídas na Inglaterra, EUA e Holanda, levavam os soldados
e mercadorias até os seringais. Os de maior porte e melhores
acomodações - dois conveses - eram chamados de Vaticanos.
Os de fundo chato, tinham o apelido de Chatas. Afora esses barcos, os
arigós viajavam também de lanchas, as Higgins, construídas
por trabalhadores brasileiros sob o patrocínio financeiro dos
americanos. Junto a bois ou material inflamável, apertados em
uma promiscuidade desumana, milhares de nordestinos saiam do mar para
os rios que comandam a vida no Norte.
O alfaiate João Rodrigues Amaro, 72, deixou uma namorada em Sobral,
norte do Ceará. Pra quem costurava um paletó por dia e
ganhava 60 cruzeiros, a viagem para o ``El Dorado'' era certeza de ficar
rico. A tropa que saiu com ele, pegou o caminhão cantando uma
despedida. Eles repetiram o refrão até cansar e perceber
que as coisas não eram bem como Getúlio Vargas dizia.
Mas só depois de dois dias em pé, numa carroceria de caminhão
e estrada ruim até Teresina (PI); outro trecho em pé ou
sentado em vagão ou no lastro de trem Maria-Fumaça até
Croatá e Maracanã (MA).
Do Maranhão ao Pará, a viagem de navio fez muita gente
vomitar, enjoar e adoecer. No navio Pedro I, onde João Amaro
embarcou, iam mais 1.200 nordestinos. Muitos soldados levavam as famílias
para a Amazônia. Mas o alfaiate foi só, pensando no ouro
branco e na namorada que acabou casando na ausência dele. Em Belém,
a tropa passou 22 dias esperando um Gaiola para a descida ao seringal.
Espera demorada de transporte era sinal de problemas nos alojamentos.
No pouso do Maranhão, por exemplo, a comida ruim causou um motim.
Zé Doutor, um amigo de João Amaro, foi morto por um soldado
da guarda por causa da reclamação na hora do almoço.
Revoltados com o assassinato, cerca de dois mil homens se rebelaram
e foram a pé de Maracanã a São Luís, no
Maranhão. Quase uma hora na estrada. O exército levou
metralhadoras para acalmar o pessoal. O negócio era botar a tropa
toda, e rápido, num navio para Belém. Mas nem sempre isso
era possível. O que normalmente acontecia eram longos e enervantes
dias de convivência em pousos, nas cidades com postos de baldeação.
Diferentes do construído em Fortaleza, cidade sede da arregimentação,
alguns alojamentos foram levantados em zonas de malária, como
os de Belém e de Manaus. Barracões sem tabiques divisórios
compartilhados por homens, mulheres e crianças. João Amaro
ficou em um pouso onde o banheiro coletivo era uma vala comum com dois
metros de profundidade e 20 metros de comprimento. Para utilizar a fossa
improvisada, a pessoa teria que se equilibrar em dois paus deitados
sobre a abertura da vala. O soldado da borracha conta que, devido ao
incômodo da posição e aos riscos que a operação
exigia, vez por outra alguém caía no buraco. Nesses casos,
não raros, o desastrado era puxado por uma corda.
Desordens. Brigas. Desacatos. O exército da borracha chegava
à metade da viagem com os nervos a flor da pele. Os alojamentos
eram cercados e vigiados, mas as liberações para um passeio
na cidade representavam problemas com a população. Segundo
João Amaro, os cariocas, em menor número, porém
mais afoitos, eram os piores. Nas ruas, beijavam as moças à
força e criavam confusão. Os jornais denunciavam: não
são a fina flor do sertão, mas a lama do asfalto, o rebotalho,
roubando, matando, saqueando e ferindo. Era essa a fama do exército
que Getúlio Vargas mandou buscar na caatinga nordestina.
Um órgão, o Serviço de Navegação
e Administração dos Portos do Pará (Snapp), ficou
com a responsabilidade do transporte dos soldados voluntários.
O ministro da Mobilização Econômica para o Esforço
de Guerra, o tenente-coronel João Alberto Lins de Barros fez
as contas: o recrutamento e transporte de homens para a Amazônia
sairia a US$ 100 por cabeça. Além dos cálculos,
ele tinha um plano. Transportar, sob uma firme disciplina militar, a
tropa numa marcha para pontos estratégicos descendo pelo Tocantins
até a Amazônia.
A idéia era construir 40 pontos de pouso para alimentação,
banhos e dormida, além de inspeção e assistência
médica. O próprio ministro afirmava já ter atravessado
essa área - 600 milhas - a pé. O diretor da Rubber Reserve
Company (RRC), D. Allen chamou a proposta de blefe de mau gosto. As
críticas mostraram que a rota do Tocantins era inviável
e massacrante. O escoamento deveria ser feito pela rota Nordeste: Fortaleza,
São Luís, Belém. Na ocasião, o ministro
João Alberto perdeu a discussão, mas ganhou vários
``afilhados'', batizados com seu nome, filhos de soldados da borracha
que nasceram durante a arregimentação, nos alojamentos
do Semta.
Em Fortaleza, onde o trabalho cresceu, o ministro João Alberto
realizava missas campais para soldados e familiares. O padre Tiago Zuarthoad
era o assistente eclesiástico do Semta. A benção
era notícia no jornal Unitário no dia 31
de março de 1943. Na reportagem, o redator conta que o bota-fora
dos soldados era feito em meio a ``vivas''. Pelo acordo, as famílias
dos voluntários também seriam amparadas, com alimentos,
escolas e assistência médica. Mas isso não aconteceu.
Todo o interesse se concentrava no transporte imediato dos homens para
a Amazônia. Uma passagem só de ida, onde nada que foi prometido
valeu.
Na volta, depois de pagar a dívida com o patrão no seringal,
além da namorada, João Amaro encontrou também a
mãe casada. Dois anos na Amazônia tinham lhe rendido uma
ficha com malária, febre amarela, impaludismo, icterícia.
A mãe não reconheceu o filho. Magro, amarelo e cabeludo,
nem de longe ele se parecia com o adolescente que se inscreveu escondido
no exército da borracha. ``Sai atrás de dinheiro e voltei
pobre e doente''. (Ariadne Araújo)
Propaganda ideológica
A tempestade de propaganda é imperativa: Trabalhador nordestino!
Alista-te no Semta hoje mesmo e cumpre teu dever para com a Pátria.
Esse tipo de convocação era característico do Estado
Novo, com uma política centralizada, condutor de massas, aglutinando
sentimento cooperativista que se volte para o trabalho e produção.
Os cartazes, desenhos, fotografias e gráficos sobre o Semta e
a borracha estavam em vários pontos de Fortaleza e outras Capitais
do Nordeste. O material estava na vitrine das casas comerciais, Correios,
Banco do Brasil, estações ferroviárias e Palácio
do Governo.
A intenção era confundir a condição de trabalhador
com a de soldado. Os campos de trabalho passam a ser campos de batalha.
Os termos exército, alistamento, recrutamento, soldado, batalha,
guerra estão sempre presentes. Em cadeia nacional, o Programa
da Borracha garantia o envolvimento político dos ouvintes. Nas
ruas, as vantagens do Semta eram divulgadas em panfletos. A propaganda
dizia que os migrantes teriam direito a 60% da borracha produzida, 50%
da castanha colhida, 50% da madeira derrubada, direito livre à
caça, à pesca, às peles de animais silvestres abatidos
e ainda a um hectare de terra para plantar.
O contraste entre a seca e a Amazônia é reforçado.
Era preciso convencer o cidadão de que a floresta não
representava mais o inferno verde, mas a terra da promissão.
O sonho do paraíso contagiou as tropas que lotavam os caminhões.
Em comboio, a cada partida, eram uma média de 10 a 12 carros
lotados. Seguindo atrás, um último caminhão levava
mantimentos para a viagem. Embora a campanha fosse nacional, o Ceará
era o espaço ideal para o discurso.
Um trabalho educativo sobre cuidados com o corpo - boa alimentação,
higiene, exames médicos periódicos -, também foi
realizado. Afinal, era importante que os voluntários tivessem
boa disposição e saú© de para o trabalho duro
da extração do látex. A proteção
à família dos voluntários funcionava como um estímulo:
o trabalhador viajava despreocupado. A Igreja também participava
da campanha. O padre Tiago Zuarthoar, o eclesiástico do Semta,
dava assistência religiosa aos voluntários e famílias.
(AA)
Medo e preconceito com a chegada dos nordestinos
``Tudo ladrão e assassino. Tudo do calibre de Lampião.
Só carabina pra lidar com arigó''. Armédio Said
Dene, 81, filho de libanês, foi dono de cinco seringais no Acre.
Para ele, a borracha só trouxe dor de cabeça. Em épocas
de glória, Said Dene até comprou apartamento no Rio de
Janeiro. O suficiente para garantir uma velhice tranqüila. O barco,
utilizado por ele para comercializar mercadoria nos rios, no entanto,
está sucateado. Hoje a produção nos seringais,
ainda em nome dele, é zero. ``Tenho é prejuízo
com os impostos pagos ao FHC. Tudo perdido. Em tempos bons eram 120
toneladas de látex por ano''.
O fim do último ciclo da borracha na Amazônia acabou, inclusive,
com os sonhos da família Said de voltar à Síria
em definitivo. O preço da borracha despencou e foi um salve-se
quem puder. Os nordestinos foram liberados e Said guardou, por exemplo,
a velha espingarda com a qual enfrentava o ``cangaço'' dos arigós.
``Era nós ou eles''. Era esta a maneira geral do patrão
tratar o seringueiro. O preconceito se fortaleceu já na chegada
dos migrantes ao Norte do País, por causa das brigas e confusões
em que a tropa se envolvia. Na época, a população
de Manaus via com insegurança e medo a chegada das famílias
nordestinas.
Eles lutavam sem medo
Ferozes como um leão, quando a noite
Baixava o degredo, o véu da escuridão
Eles olhando o firmamento
A Deus pediam proteção.
(RN)
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O exército da borracha
foi abandonado no front. No meio da selva, a prisão moral e física
pela dívida, solidão, isolamento. Na base do salve-se
quem puder, os nordestinos tinham que aprender rápido a produzir
o látex. Sem borracha, sem comida. Sem borracha, sem liberdade.
Flagelados, migrantes, enganados e cativos. O exército
da borracha foi abandonado no front: a selva. Festa para as mutucas,
meroins, piuns, borrachudos, carapanãs. Além do desconforto
com a praga de mosquitos, doenças. Um remédio, a velha
Atebrina, indicado para febre amarela, sarava quase tudo. Em todo caso,
melhor era descobrir, e rápido, saídas na natureza para
os males tropicais. Muita gente não conseguiu. Uma caravana de
estudantes cearenses foi à Amazônia ver de perto a situação
dos conterrâneos e voltou com um número assustador: pelo
menos 23 mil nordestinos já tinham morrido na batalha da borracha.
Por conta e risco. Cearenses, paraibanos e maranhenses tinham que conviver
com a malária, febre amarela, beriberi, icterícia e ainda
ferimentos ou problemas de saúde decorrentes da intensa e árdua
atividade. O soldado da borracha Antônio Madeira, 72, foi alistado
em Sobral, no Ceará. A caminho de Rio Branco, ele conta que viu
um paraibano, também arigó, morrer à míngua.
``Eu chamei a enfermeira do Semta, mas ela disse que a febre dele era
manha''. Dois dias depois, o paraibano morreu com os olhos abertos,
sem ajuda, sem remédio. ``Eu e Antônio da Luz pusemos um
toco de vela em suas mãos frias. Cavamos a sepultura na sombra
de uma árvore e cobrimos a cova com flores silvestres''.
Os migrantes eram esperados nos portos do Vale Amazônico. Os seringalistas
escolhiam os mais fortes, separavam suas tropas, cuidavam do transporte
até o seringal. Na partilha dos grupos, novas e velhas amizades
se separavam. Afinal, o trabalho era feito na mata, no máximo,
em duplas. Com uma caderneta na mão, os patrões iam registrando
tudo o que gastavam com os arigós. A dívida e a escravidão
começavam. Os contratos de trabalho eram para inglês ver.
Nada do que foi prometido valia. A lei era da bala, surras, ameaças,
mortes. O patrão fazia pressão com seus capangas. Controlava
a comida, a roupa, o transporte, o remédio.
A exploração nos preços era garantia de aumento
da dívida. A borracha era a moeda. Um quilo de toucinho equivalia
a dois de látex. Armas e munições tinham uma cotação
mais alta na tabela de preços. A espingarda, vendida a 229 cruzeiros
no comércio, custava o dobro na floresta. Um quilo de café,
por exemplo, era vendido no seringal a 10 cruzeiros, enquanto na cidade
custava 2,50 cruzeiros. No entanto, não havia como fugir. O patrão
controlava o abastecimento. Sem borracha, sem comida. Sem o saldo da
dívida, sem liberdade. O freguês, como era chamado o trabalhador,
devia mais que látex ao patrão: obediência e respeito.
Salve-se quem puder! O freguês joga o jogo do enganado por enganado.
Para se vingar do patrão, vende borracha escondido para o regatão,
um comerciante ambulante ao longos dos rios e igarapés da Amazônia.
Em troca do ouro branco desviado, quinquilharias de baixo preço.
O pequeno pecado, no entanto, tem risco alto. Na maioria dos casos,
acaba em morte. O freguês descobre, mais uma vez, que o jogo sempre
vira para o mais forte. No Livro do Tombo da Prelazia do Acre, a história
conta uma vez que o mais fraco tentou se organizar.
O caso aconteceu no ano de 1943, às vésperas da festa
de São Sebastião, quando cerca de 200 arigós combinavam
apresentar ao interventor do território do Acre, Silvestre Coelho,
um abaixo-assinado reclamando das péssimas condições
de vida e de trabalho nos seringais de Rio Branco. Dois padres, José
Carneiro e Peregrino Carneiro redigiram a carta e foram à corte
marcial por isso. Acusação: sabotagem do esforço
de guerra. Por essa e outras frustradas tentativas, os arigós
usavam, vez por outra, a velha espingarda de caça contra o capanga
do patrão. Era matar ou morrer.
Uma espingarda cartucheira (terçado Collins), um lampião
a óleo diesel (poronga), uma faca jebond (usada nos seringais
do Oriente). Ainda de madrugada, o arigó deixa a palafita (o
barracão), construída em meio a floresta, para percorrer
as ``estradas de seringas''. No caminho, ele vai cortando árvores,
encaixando tigelas para aparar o látex e só depois volta
para recolher a produção do dia. A espingarda pode salvá-lo
de uma emboscada de índio ou de fera. O lampião, acoplado
na cabeça com um suporte de alumínio, clareia o caminho
ainda escuro. A faca sangra as árvores sem perturbar a produtividade.
Além de arigós, o apelido de brabos. Os nordestinos não
sabiam nada do trabalho. Adoeciam e morriam com facilidade. Demoravam
a se acostumar à solidão e à lei da mata. Reclamação
grande era a de falta de mulher. Quanto maior o isolamento, maior o
problema. Os casados que se cuidassem. Uma esposa podia significar morte
no seringal. ``Freguês matava freguês pra roubar a mulher'',
lembra Alcides Rodrigues da Silva, 83. Pra resolver a questão,
tinha patrão que mandava buscar mulher em lugares distantes.
Mas o seringueiro reclamava: as melhores ficavam pra quem mandava no
seringal.
Alcides Rodrigues Correa da Silva, 78, não enfrentou esse problema.
Tinha a mulher, Estelita, hoje também com 78 anos. Para ela,
mais que o de ser raptada, o medo era de índio. Na estréia
da chegada do casal, duas mulheres grávidas foram assassinadas
por uma tribo e os fetos retirados da barriga. O crime, como outros
tantos, ficou impune. ``Era proibido matar índio. Eles viam a
gente primeiro. Conheciam melhor a selva''. Durante 10 anos, Alcides
levou carga de látex nas costas, cerca de 40 quilos, numa cesta
de cipó, a jamachiu, segura por arriatas no peito e testa do
trabalhador. Pra completar, o percurso: oito horas por dia, pelas margens
do rio Juruá (Cruzeiro do Sul - Acre).
O seringalista também garantia diversão. No fim de semana,
o barracão do patrão promovia um forró para a tropa
solitária. Se calhasse na sorte, o arigó até chegava
de camisa de tricoline, para impressionar. Quando não tinha mulher,
dançava homem com homem. O negócio era beber cachaça
e ouvir música. Quando não tinha cachaça, bebia-se
álcool puro e, em caso de luxo, álcool misturado ao leite.
O ``rabo de macaco'', como era chamado o preparo, esquentava o forró
que bem podia terminar em ``pega-pra-capar''. Além dos sopapos,
as festas serviam também para divulgação de histórias
de trancoso. A preferida: o caso do homem devorado pelo Mapinguari,
um dos mitos da selva.
Ter saldo com o patrão podia ser perigoso. Alguns seringueiros
foram mortos na hora de cobrar a liberdade. Outros, raros, deram a volta
por cima. Depois de pagar toda a dívida, foram comercializar
rio abaixo e acima ou passaram a gerente de patrão. Alcides Rodrigues
da Silva fez isso. No seringal Cruzeiro do Vale, ele passou a transportar
gente e borracha em um batelão nos afluentes do rio Juruá,
no Acre. Mais tarde, na foz do rio Tejo, gerenciou um seringal. ``Eu
sabia o que eles sofriam, por isso ajudava do jeito que podia''. (Ariadne
Araújo)
Americanos batem em retirada
Uma revoada. Tratores abandonados em plena floresta. Barcos incompletos
nos estaleiros. Estruturas para construção largadas nas
barrancas dos rios. Aeroportos entregues a atônitos funcionários
brasileiros. Os americanos batiam em retirada. Após a capitulação
japonesa, em agosto de 1945, a borracha brasileira não interessava
mais. Utensílios, máquinas, caminhões, tratores,
barcos, navios, equipamentos de rádio. A Rubber Developement
Corporation (RDC) vendeu tudo ao Banco de Crédito da borracha.
Para efeito de propaganda, uma ou outra cerimônia oficial. Funcionários
americanos transmitiam às autoridades brasileiras o reconhecimento
ao papel vital desempenhado pelos soldados da borracha no esforço
de guerra. Um hospital, construído e dirigido durante a guerra
pela United States Rubber Developement Corporation, em Manaus, foi transferido
ao Brasil. Pra completar, Henry Ford, o magnata americano, anunciou
o fim da mais cara tentativa de cultura racional do látex no
País. Desistiu das propriedades de Fordelândia e Belterra,
às margens do tapajós, no Pará.
Um tiro mortal dos Aliados. Em alvoroço, o Brasil se reúne
na Conferência Nacional da Borracha para decidir o que fazer.
O problema principal era o preço que garantisse a sobrevivência
da atividade frente a concorrência. A borracha oriental e a sintética
encheram o mercado internacional com um preço três vezes
mais baixo que o látex brasileiro. Com a desmobilização
dos americanos e o fim da ditadura de Getúlio Vargas, os meios
de comunicação começaram a denunciar a sorte de
uma população - 36 mil homens para o corte da seringa
e mais 19 mil dependentes.
Eles fizeram esta história
Conhecendo farinha - O casal João e Glória de Souza
moram em uma casa de madeira, em um barranco às margens do rio
Juruá. Filho de cearense, ele conta que, no seringal, passou
a conhecer algumas coisas do Ceará, como a farinha. Nos tempos
de soldado da borracha, ele e a mulher esperavam o regatão que
vinha subindo o rio com mantimentos. Hoje a comida é doada pelos
filhos e netos.
Sem aposentadoria - Irene Maria da Silva, 60, não tem
mais esperança. O aposento de tantos anos no seringal Fortaleza,
às margens do rio Juruá, não virá nunca.
Sem chances para quem não tem documentos e ninguém quer
ser mais testemunha. Hoje, ela e a família sobrevivem de uma
pequena agricultura e da pesca de peixes. ``Fomos desprezados pelos
soldados da borracha. Gente que nunca cortou seringa conseguiu o aposento''.
Na época em que ela e o marido trabalhavam na mata, muitas vezes
Irene Maria tinha que cozinhar quilos de carne de onça e veado.
De empregado a patrão - De seringueiro a seringalista.
Alcides Rodrigues da Silva, 83, e Estelite Correa da Silva, 78 , tiveram
14 filhos nos seringais. Depois de tantos anos na floresta, pelo menos
10 no trabalho pesado de soldado da borracha, Alcides da Silva tem que
cuidar muito da saúde. Por causa do peso da carga de látex
que era obrigado a levar nas costas, ele tem hoje um problema na coluna.
O tratamento já consumiu 43 injeções. Aposentado,
ele quase não pode andar sem a ajuda da mulher que ainda se lembra
das aflições da mata, como o medo de ser morta por índio.
Caminhando pela selva
Fui seringueiro formado
Vivendo com os índios em galhos de árvores trepado
Comendo frutas silvestres,
Comendo anta e veado.
(RN)
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Monografias, teses de
doutorado, temas de debate nas salas de aula e nas Organizações
Não Governamentais, espaços reservados nos museus. O último
e tenebroso ciclo da borracha atrai até hoje o interesse de centenas
de pessoas no Norte do País. Mas o cuidado com o acervo ainda
é feito sem critérios científicos.
A saga do Exército da Borracha já
rendeu pelo menos uma tese de doutorado. Professor da Universidade Federal
do Acre (Ufac), o catarinense Pedro Martinello se apaixonou pela história.
A pesquisa abrange, inclusive, um farto material levado do Brasil para
os EUA, arquivos de várias instituições americanas
que trabalharam na Campanha da Borracha. Os microfilmes custaram US$
500 e muitas noites de trabalho a Pedro Martinello. Depois de publicado
pela Ufac em 1988, o estudo é hoje uma das mais completas e raras
obras sobre o assunto.
Mas o tema vem despertando o interesse dos universitários, inclusive
no Ceará. Maria do Socorro Gomes Vieira conseguiu seu grau de
bacharelado na Universidade Federal do Ceará (UFC) com a monografia
Soldado da Borracha - Discurso da emigração numa
economia de guerra. No Museu da Borracha, em Rio Branco (AC),
onde nem tudo é contado, são os turistas que ficam impressionados.
O encarregado de receber os visitantes, o ex-seringueiro e poeta popular
Raimundo Nonato da Silva, 66, sai apontando as peças da época,
misturando história com versos de cordel, confundindo os estrangeiros.
Ignorante sobre números, ele também é inocente
sobre parte dessa saga: a viagem e o engano de milhares de nordestinos.
O Conselho Nacional dos Seringueiros, há 10 anos com sede no
Acre, não cuida do resgate histórico. O objetivo é
a organização dos seringueiros. A luta é para que
eles continuem na floresta, que o preço do látex volte
a subir e que saiam financiamentos para o plantio de arroz e feijão.
Sobre a escravidão que ainda hoje subjuga os seringueiros, o
Conselho Nacional explica que a denúncia é de difícil
apuração, porque não há comunicação
na maioria dos seringais. Os jornais do Acre, no entanto, ainda trazem
notícias de trabalho escravo nos seringais.
O Centro de Trabalhadores da Amazônia(CTA) cuida da alfabetização
e saúde do seringueiro. Segundo o coordenador Raul Vargas Torrico,
33, o órgão monta pequenas escolas nos seringais para
ensinar o básico: as quatro operações, por exemplo.
``Na hora de comercializar o látex ele tem que saber fazer contas
para não continuar a ser ludibriado''. Como a produção
da borracha acabou, a proposta do CTA é que o seringueiro aproveite
o látex para fabricar sapatos, bonecos, vasilhas, utensílios
de borracha. ``Dá dinheiro, é bem aceito no mercado. Pode
ser uma boa fonte de renda''.
O certo é que apesar das propostas, a passagem do século
e o fim do último ciclo da borracha representaram pouco para
o seringueiro. Ele ainda vive cativo e isolado no meio da selva, à
mercê de um patrão. No Acre, por exemplo, as denúncias
nos jornais e dos representantes de entidades que trabalham com a categoria
mostram isso. Mas a distância e a dificuldade de acesso aos seringais
parecem ser obstáculos grandes demais para serem superados ainda
hoje, numa época em que a tecnologia faz do mundo uma grande
aldeia, onde a comunicação é instantânea.
Nos museus, a memória vem pela metade e empiricamente. (Ariadne
Araújo)
Busca de alternativas
Até hoje ninguém sabe quantos pessoas e quantos são
os seringais do Vale Amazônico. A Universidade Federal do Acre
(Ufac) vem mapeando as colocações (sítios dentros
dos seringais onde se extrai a borracha) pelos menos em uma reserva
de extrativismo, a que leva o nome de Chico Mendes - a primeira a ser
criada no Brasil. As outras, Assis Brasil, Rio Branco, Sena Madureira,
Brasília e Xapuri, vão ficar para depois. A idéia
é saber o que pode e o que não pode ser feito e quantas
famílias moram nas reservas do Acre.
Em Chico Mendes, vivem 1.600 famílias. Com o mapeamento na mão,
engenheiros agrônomos e biólogos da Ufac poderão
saber também o que pode ser extraído da floresta além
da borracha. O óleo de copaíba, o açaí,
a andiroba, por exemplo, podem diversificar a produção.
Mas o trabalho ainda vai demorar por conta do acesso difícil.
A não ser que a Ufac consiga o que vem tentando há tempos:
uma foto de satélite da região.
No Ceará, um pedaço dessa história é guardado
no arquivo do Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará.
São fotos, cartazes, e dois diários (manuscritos em francês)
de Jean-Pierre Chabloz. Tudo iniciativa particular de Chabloz. Além
disso, são apenas histórias de vida de cearenses que conseguiram
voltar do Inferno Verde - uma espécie de aventura do herói
arigó. Do Semta, que teve sede em Fortaleza, não há
quase vestígios. Os documentos, pilhas e pilhas de papéis
com o cadastro dos voluntários, simplesmente desapareceram. Ninguém
sabe, ninguém viu. (AA)
Eles fizeram esta história
A volta do paroara - Edgar Bezerra Mota, 72, cearense
de Alto Santo, conseguiu escapar são e salvo, ou quase, da guerra
pela borracha. Ele explica que não voltou antes para casa porque
não queria ser considerado desertor e ficar marcado pelo Governo.
Ele e mais 800 homens viajaram para o Norte no navio Pedro II, com medo
de torpedo e de alemão. ``Além dos caça-minas,
um Zepelin nos vigiava''. Na mata, conheceu índios, mas mansos.
Conheceu também a malária e o beriberi. Lá, Edgar
Bezerra passou dois anos. Quando tudo acabou, foi liberado. No Ceará,
era, então, mais um paroara. O termo (paroara) é um outro
apelido, dado aos arigós que fizeram o caminho de volta pra casa.
Hoje ele não tem notícia dos companheiros que tiveram
a sorte de voltar. Na praça do Ferreira, para um seleto grupo
de amigos, nas noites folgadas dos aposentados e amantes do Centro de
Fortaleza, ele conta o que viveu e sentencia: ``que coisa feia é
uma guerra''.
Tantas saudades eu sinto
Da aurora da minha vida e daquelas
Seringas sofridas, que os tempos não
Trazem mais, naquelas manhãs tão fagueiras
Nas sombras das seringueiras, naqueles verdes
Corais, subindo montes e descendo montes,
Hoje eu não corto mais.
(RN)
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Um dia de glória. Nem que seja tarde demais. Os soldados da borracha,
hoje todos com mais de 60 anos, festejam o 1° de maio. Na festa, eles
dançam, cantam e falam do sonho da aposentadoria. No Acre, pelo menos
11 mil já conseguiram.
Chapéu de couro, forró e cordel. O cearense
Pedro Coelho Diniz, 72, matou a saudade de sua terra. Passou um dia
inteiro numa festa em homenagem aos nordestinos. Melhor que isso, só
conseguindo o que todo soldado da borracha sonha: rever a família. Com
a ajuda de um santo milagreiro, São Francisco das Chagas, ele também
alcançou a graça. Pra pagar a promessa, tirou até foto na Basílica de
Canindé, no Ceará. Quite com o santo, com Getúlio Vargas e com o
patrão, ele agora tem um compromisso marcado com o passado pelo menos
uma vez por ano.
Na festa do trabalhador, 1° de Maio, Pedro Diniz revê os companheiros
de seringa - os nordestinos que não puderam ou quiseram voltar pra
casa. Em Rio Branco, no Acre, eles conseguiram uma data festiva, uma
cartilha, uma camisa e uma aposentadoria de dois salários mínimos. Para
a festa, este ano no Clube Recreativo Rio Branco, a tropa de
ex-soldados da borracha veio de longe. Cansada pela idade e pela
doença, traz em sacos plásticos documentos, orações, cordéis e
reivindicações mal resolvidas da época da guerra.
Maria Rosa Lajes, 71, chora de emoção e revolta. Ela luta para
aposentar uma prima que veio numa leva de 600 pessoas do Ceará. Mas nem
sempre a aposentadoria é possível. Segundo a Lei, duas testemunhas e
toda a documentação possível resolvem o problema. ``Meu pai foi um
herói. Trabalhava pro Governo e trouxe para cá essa carga de gente. Ele
só falava nessa aposentadoria, mas morreu sem conseguir. O dinheiro foi
depositado no Tesouro Nacional. Agora quero ver, pelo menos, minha
prima justiçada. Afinal, foi uma vida cangaceira aquela''.
Palmas! A festa do Soldado da Borracha tem discurso. O prefeito de
Cruzeiro do Sul, Aluízio Bezerra, divulga: só no Acre, 11 mil
ex-seringueiros se aposentaram. Filho de seringueiro cearense, ele é o
herói dos arigós. Em 1988, como senador pelo PMDB, Aluízio Bezerra
conseguiu incluir o artigo 54, uma pensão mensal vitalícia, no Ato das
Disposições Constitucionais Transitórias. No ano seguinte, a Lei 7.986
regulamentou a concessão do benefício. Em 1990, a Portaria 4.630 dispõe
sobre as instruções necessárias à execução da Lei.
Pra explicar toda essa complicação legal, o prefeito editou uma
cartilha para os soldados da borracha. Uma história em quadrinhos fala
da existência do benefício e diz como conseguir. A luta agora é para
ver aprovado no Congresso Nacional o direito a um décimo terceiro. O
exército aposentado escuta em silêncio. Autoridades e autoridades ao
microfone. Por baixo da blusa, muitos usam a camisa de malha, uma nova
farda do soldado aposentado. Estão felizes. Finalmente amparados. Nas
próximas eleições, terão que mostrar como é grande a gratidão.
Depois da falação, música e merenda. Os arigós esquecem o reumatismo,
as dores do corpo e da alma, e caem na farra. É claro, já não há mais
saúde para o ``rabo de macaco''. No cardápio, só refrigerante com bolo.
Sebastião Simão, 90, perdeu a vista, não consegue mais andar sozinho,
passou cinco anos se tratando de impaludismo, mas não perde uma festa.
Nascido no Rio Grande do Norte, ele fez família no Acre e hoje são os
sobrinhos que o acompanham a toda parte. Enquanto há música, ninguém se
despede. O 1° de maio dos soldados da borracha começa às 9 horas da
manhã e vai até às cinco da tarde.
Quem mora mais longe e tem que pegar ônibus ou carona, chega um dia
antes ou ainda de madrugada. O medo é de que as estradas, interrompidas
e enlameadas, impossibilitem a viagem. Afinal, todo cuidado é pouco pra
quem tem um compromisso moral, mais um, com tantos doutores. Depois é
voltar na mesma pisada. Retornar aos biscates - venda de picolés e
cigarros -, pra completar o dinheiro das despesas. O cearense Pedro
Coelho Diniz levou o chapéu de couro pra dança e foi o último a sair.
Lembrança dos finais de semana nos seringais onde ele fazia sucesso
como pé-de-valsa.
Quem não mostra desempenho na dança, mostra nos versos. Napoleão
Santos, 83, sabe fazer cordéis e contar de cabeça a história do Acre.
Benedito Ferreira, 84, cearense do município de Russas, não aprendeu
história, mas o castelhano de tantos anos na fronteira da Bolívia. Foi
no país vizinho que ele trocou os dentes naturais, todos estragados,
por uma coroa de ouro e se curou de cobreiro e fogo selvagem com a
graça de Santa Luzia. Na festa, ele que não voltou mais ao Ceará, mata
a saudade do forró e dos amigos.
Na música, a vaquinha só tem o couro e o osso e o cantador só deixa a
terra natal no último pau-de-arara. Dessa vez, se o arigó aposentou o
pé-de-valsa dos tempos dos seringais, é o caso de mulher dançar com
mulher. São elas também soldados da borracha. Na maioria, viúvas que
foram beneficiadas com a Lei. Choram, riem, apertam a bolsa sempre
cheia de documentos e trazem pleitos novos para as autoridades. É
sempre um parente que não tem como provar sua vida na extração do
látex. Os homens, por sua vez, têm pedidos mais vistosos. Querem, por
exemplo, desfilar no Sete de Setembro como heróis da Pátria, em pé de
igualdade com os combatentes da FEB. (Ariadne Araújo)
OS DEZ MANDAMENTOS DO EXÉRCITO DA BORRACHA
1) Cumpriremos as instruções que nos forem legalmente enviadas,
sempre recebidas com entusiasmo, procurando produzir mais borracha,
porque a extraordinária ação do Presidente Vargas, como uma voltagem de
potencial infinito, tem o milagre e a força de contagiar todos os
brasileiros para a unidade e a salvação da Pátria;
2) Cumpriremos essas instruções, ingressando alegremente nas
selvas, porque a palavra do Presidente Vargas, descendo do Catete e o
nosso labor, subindo dos seringais, formam o mesmo hino da raça que
distribui igualmente o seu sangue e os seus benefícios nos palácios,
nas usinas e nas barracas;
3) Cumpriremos essas instruções, explorando e defendendo a
imensidade das árvores, porque o presidente Vargas é um apóstolo da
humanidade redimida, porque pertencemos aos 300 milhões de americanos
que transformam o seu continente num Sinai, para as novas tábuas da lei
e os novos decretos dos homem;
4) Prometemos convergir todos os nossos esforços na vitória da
produção, certos que a nossa inércia seria uma traição aos Aliados que
se batem pela liberdade, a irmãos que foram sacrificados pela vilania
adversária, aos nossos aeronautas e marinheiros que exercem vigilância
no litoral contra a tocaias dos submarinos;
5) Prometemos trilhar diariamente as estradas das seringueiras,
porque enquanto honramos os compromissos do Brasil que o Presidente
Vargas firmou perante o mundo, também realizamos uma outra de economia,
integrando o Amazonas à economia nacional;
6) Prometemos cumprir as ordens do governo da República, porque
arregimentados como soldados, trabalhamos como homens livres, à luz de
contratos assinados no Ministério do Trabalho com as garantias das leis
sociais, benemerência do Estado Nacional;
7) Juramos permanecer nos seringais para o que formos designados
porque são quartéis do Brasil e deles não sairemos, cometendo crime de
deserção, como não sairíamos de uma frente de batalha;
8) Juramos viver em máxima harmonia e disciplina, ao lado de
seringalistas e seringueiros veteranos, porque são soldados da mesma
batalha e brasileiros dos mesmos ideais porque descendem de pioneiros e
desbravadores que souberam resistir e vencer, abrindo caminho para as
investidas de hoje;
9) Queremos proclamar em juramento perante Deus, ante a Bandeira
e o Hino da Pátria, o nosso espírito de sacrifício e lealdade ao
presidente Vargas de quem cumpriremos as ordens, sejam quais forem as
circunstâncias;
10) Queremos tornar bem claro que, pela vida ou pela morte, tudo
faremos e aceitaremos em bem do Brasil, do continente americano, das
Nações Unidas, na guerra universal contra a tirania e a opressão.
O seringueiro é um homem forte
De uma coragem tamanha
Enfrenta onça e enfrenta cobra lá no alto
Da montanha, pensando no seu futuro
Corta de noite no escuro, mas, coitado, nada ganha.
(RN)
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O Mapinguari, o Curupira,
a Mãe da Mata, a Matinta Pereira, o Caboquinho. Eles encantavam,
açoitavam e atormentavam os soldados da borracha em meio a floresta.
Os mitos da Amazônia entraram no cotidiano dos nordestinos migrantes.
Dois metros de altura, cabeludo, couro resistente,
unhas grandes e afiadas, um olho no meio da testa e umbigo grande por
onde solta um cheiro mau que embriaga o caçador. O Mapinguari
comedor de carne vive na floresta, segundo os índios Apurinãs.
O mito assustou o exército da borracha nas madrugadas de extração
de látex. Só um tiro no umbigo poderia matar o bicho.
No Parque Chico Mendes, na periferia de Rio Branco (AC), uma reprodução
do Mapinguari em tamanho natural conta a lenda para os visitantes.
No lugar da mula-sem-cabeça, do lobisomen, da alma penada, o
Curupira, a Mãe da Mata, a Matinta Pereira, o Caboquinho, o boto.
A floresta tem muitos perigos para quem vem do sertão nordestino.
O Curupira é avermelhado e tem a forma de um macaco com os pés
virados para trás. No dia em que o caçador vê esse
bicho não consegue matar a caça: dá uma moleza,
fica de azar. Para enganar o besta, o Curupira se transforma também
numa linda moça que faz o caçador se perder na floresta.
Se não for isso, pode ser a Mãe da Mata, que castiga o
seringueiro que maltrata as árvores. Essa é uma velha
magrinha, mas exigente e poderosa. Açoita cachorro e derruba
arigó.
A Matinta Pereira é um pássaro de cor cinzenta e tem as
asas amareladas. Cheia de encantos, às vezes aparece com cara
de gente. O Caboquinho já é mais difícil de ser
encontrado porque quase sempre fica invisível. É baixinho,
anda em pé e seus cabelos são como de porco espinho. O
Caboquinho, quando fica aborrecido, açoita o caçador e
deixa pelo corpo da vítima as marcas de cipó. Histórias
contadas de boca, nas festas dos seringais, para os brabos que chegavam
do sertão.
A lenda do Mapinguari Comedor de Carne e Outras Histórias
do Seringal foi escrita pelos próprios arigós
e editada em um livro pelo Centro dos Trabalhadores da Amazônia
(CTA). Segundo os autores, tudo o que foi contado é verdade.
No livro, a onça é um dos mitos preferidos. A pintada
subia na árvore e pegava o caçador desprevenido, rosnava
e enfrentava cachorro. Francisco de Assis Monteiro conta o dia em que
saiu pra caçar com o filho e matou uma delas. Uma cadela que
acompanhava pai e filho não teve tanta sorte. Levou uma patada
tão forte que ficou com a cabeça torta para um lado. (Ariadne
Araújo)
Lembrança de casa
Tanto cearense, só podia dar nisso. Às margens do rio
Juruá (AC) um seringal tem o nome Fortaleza. Mas no município
Cruzeiro do Sul, a notícia é de dezenas de localidades
chamadas de Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba. Uma maneira
dos soldados da borracha se sentirem em casa. Por causa disso, José
Pereira da Silva, 64, pode dizer que mora em ``Fortaleza'', a Capital
onde nasceu o pai dele. José Pereira não corta mais seringa
e nem conseguiu o aposento como soldado da borracha. Vive do plantio
de arroz e feijão para sustentar a família.
Os vestígios da vida de soldado da borracha estão em toda
parte. Em um dos quartos da palafita, às margens do rio, ele
guarda as peles de onça pintada que matou com sua espingarda
- outra relíquia, hoje amarrada no teto baixo da casa. ``Foram
mais de 20. Nunca tive medo delas. A carne eu trazia para a mulher fazer
a comida pros meninos''. Na vizinhança, outro soldado da borracha,
o João Batista da Silva, 73, diz alimentar um sonho: conhecer
a verdadeira cidade Fortaleza. ``Sou metido a peruano. Vou onde quero''.
Enquanto isso não acontece, o soldado da borracha esquece a tristeza
e a miséria bebendo uma garrafa de álcool puro. Mais uma
pra quem gosta de enfeitar a casa com as garrafas plásticas vazias
penduradas pelos caibros. No seringal Fortaleza, as famílias
ainda falam da extração do látex, mas as estradas
de seringa já foram tomadas pelo mato e só na lembrança
ainda vive essa história. E, às vezes, nos lamentos e
reclamações de João Batista, bêbado e abandonado
até hoje às margens do Juruá. (AA)
Eles fizeram esta história
Da ferrovia ao seringal - João Rodrigues Amaro, 72, escreveu
o livro Retalhos da Minha Vida e Poesias Populares, onde
ele conta o que sofreu na selva. Logo que chegou, foi recrutado para
trabalhar na construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré,
mas uma praga de piolho branco, vulgo arroz elétrico, fez o arigó
desistir. ``A coceira era tanta que eu andava de saia. Já não
suportava a saudade e morria de arrependimento. O jeito era suportar''.
Próximo emprego: coveiro em um vilarejo. Depois foi trabalhar
nos seringais por dois anos. ``Quando voltei, minha mãe não
me reconheceu''.
Sonhando com onça pintada - Vende cigarro, mas não
fuma. Vai à festa, mas não dança. Benigno José
Moreira, 73, deu uma pausa no trabalho apenas para rever os amigos soldados
da borracha. Na época do seringal, o pai conseguiu comprar algumas
cabeças de gado e ele acabou herdando uma parte. Mesmo tendo
se passado tanto tempo, Benigno ainda sonha matando onça pintada.
A venda de cigarros é pra completar o aposento e pra distrair
a velhice. Na homenagem do 1° de Maio, dia do trabalhador, ele
nem entrou. Ouviu os discursos do lado de fora mesmo. ``Aqui é
melhor porque não passa ninguém sem me ver''.
Porta-voz - No Acre, um homem fala em nome dos soldados da borracha.
Expedito do Nascimento, 72, nasceu em Xapori (pai e mãe cearenses).
Ficou viúvo duas vezes e agora casou com uma mulher 40 anos mais
jovem. Com 17 anos se alistou no exército da borracha e hoje,
pelo menos nas festas de 1° de Maio, ele discursa em nome dos companheiros
de seringa. Também é Expedito Nascimento quem orienta
os desinformados sobre como tirar o aposento. ``Vida triste, mas eu
venci. Afinal, apesar da malária, tenho saúde e ainda
muito tempo pela frente''.
Mascipira ou Curupira
Como queiram chamar, ele é o rei da
Montanha e vive morando lá
Dono de todas as caças
Não deixa ninguém matar.
(RN)